Mais uma ciclista morta na avenida paulista

Em 2009, quando minha bike tinha acabado de ser roubada, aconteceu o atropelamentdo da Márcia Prado na Avenida Paulista. Naquela época, como não estava pedalando, acompanhei as manifestações a pé e tentei saber por uma série de postagens quem era a pessoa que havia sido morta.

Em 2012, Márcia Prado tem um memorial na Avenida Paulista. Além disso, seu nome está marcado na primeira rota cicloturística pro litoral. Recentemente, um grupo foi acompanhar um dos julgamentos do processo. A memória da pessoa e do atropelamento continuam presentes nas listas tanto da Bicicletada, quanto do Ciclotur. Com isso tudo, quero dizer que muito foi feito para que houvesse memória do fato e para que ele não se repetisse.

Hoje, mais uma ciclista foi morta num atropelamento de ônibus na Avenida Paulista. Pelas primeiras fotos, arrisco dizer que ela foi morta a menos de uma quadra de onde morreu a Márcia Prado. Ainda não sabemos quem é, Seu nome era Julie Dias e a conheci neste ano no encontro nacional de cicloturismo em Santa Maria Madalena. Com a caixa de papelão no bagageiro, Julie não era uma ciclista de “lazer”, mas alguém que se transportava de bicicleta. As primeiras testemunhas ouvidas afirmam que o motorista atravessou no farol vermelho, o que, se confirmado, é o mesmo que dizer que o motorista assassinou a ciclista. Cara, só posso dizer que se foi uma moça jovem, muito bonita e de extrema simpatia, que curtia viajar de bike e que vai fazer uma falta do mais grande caralho nos próximos encontros de cicloturismo.

Cabe ressaltar que, de 2009 pra cá, nenhuma faixa especial pra ciclistas foi pintada na Avenida Paulista. Os ônibus continuam circulando do lado direito, aonde os ciclistas são obrigados por lei a transitar. Os carros continuam sendo vistos com frequência acima de 60km/h. A CET continua não autuando pessoas que passam com seus carros a menos de 1,5m dos ciclistas. Em suma, a Avenida Paulista continua sendo simbólica do quanto nossos políticos estão cagando pros ciclistas e pras leis que deveriam estar cumprindo.

Lembro tudo isso, porque passei 4 semanas de bicicleta nas estradas do Brasil e 3 dias nas estradas do Paraguai. E a sensação geral de circular por uma estrada, um espaço feito para os carros andarem a velocidades inumanas, por vezes é a mesma que de passear por um grande cemitério, depois de encontrar centenas de cruzes e monumentos aos mortos em “acidentes”.

Brasil

Paraguai

Avenida Paulista

10 opiniões sobre “Mais uma ciclista morta na avenida paulista

  1. Maria de Fátima do Prado Valladares disse:

    O sistema fala assim: “Ops, desculpa aí, eu errei mas a culpa é sua”.

  2. Edson Moreira disse:

    Vamos deixar esses pensamentos poéticos, sessentistas, infantis para as conversas no happy hour.
    Existe a vida ideal (como deveria ser) e a vida real (como ela é).
    Avenida Paulista não é lugar para ciclistas.
    Adoro ciclismo e ciclistas, mas moro em uma esquina com a Av. Paulista (na Joaquim Eugenio) e acho um absurdo como jovens do bem arriscam a vida por um idealismo sem nexo.
    Existem leis, horários e nos ambos tristes casos (Da Marcia e no de hoje) as ciclistas estavam pedalando em horários não permitidos.
    E qual o direito de alguem chumbar algo na avenida para homenagear algo???? E para as pessoas atropeladas, assassinadas ou afins??
    Pensem direito antes de se porem em risco .. tem tanta vida preciosa pedalando por ai.
    Meus sentimentos à familia da Juliana, que ela esteja em paz.
    Abraços.

    • Fabrício Muriana disse:

      Edson

      Antes de fazer um comentário grosseiro como o que você fez, procure se informar sobre as leis do trânsito do seu país.
      Não existem horários não permitidos à circulação de ciclistas em qualquer via pública no código de trânsito brasileiro.
      A vida real de que você comenta acontece pra mais de 400 mil ciclistas que usam suas bicicletas como transporte diariamente em São Paulo.
      Homenagear os mortos é um ritual humano que existe desde que morávamos em cavernas, caso ninguém tenha te explicado isso.
      Em tempo, pensamentos poéticos de happy hour têm alguém como você, que só enxerga o carro como meio de locomoção, e deve ser dessas pessoas felizes que trabalham o dia inteiro e só tem um pouco de liberdade pra pensar no happy hour.
      Desejar sentimentos à família imputando a culpa à ciclista, a mais desprotegida da história, é o cúmulo da falta de nexo e do desrespeito.
      Procure ter noção do que diz quando comentar sobre o assunto que envolve a morte de outra pessoa.

    • É por causa de comentários como esse que um dia como o de ontem fica ainda mais triste, a resistência e a luta por um trânsito menos cruel ficam mais difíceis, o ideal de uma cidade maus humana fica mais distante.

      Mas apesar disso, a gente continua.

      A quem fala isso, desejo do fundo do coração que tenha um filho que opte por ser ciclista (e como ciclista e ativista, garanto que isso não é uma praga, mas um voto de felicidade). Desejo também, claro, que esse filho não precise morrer desse jeito, assim como desejo que até lá o pensamento retrógrado de seus pais seja atenuado com uma cultura mais inclusiva e respeitosa.

      • Monaco disse:

        Eu venho trabalhar de bicicleta todos os dias, faço isso em primeiro lugar para eu ter uma vida melhor, pois quem utiliza a bicicleta dificilmente chegará de mal humor no trabalho, evito vias principais.. mas nem sempre isso é possível, agora dizer que temos q respeitar horário para andar?? De um pulo em alguma banca da paulista que você irá encontrar o código de transito brasileiro se não me engano, vale a pena dar uma boa olhada nele

  3. Juli disse:

    Existem vidas preciosas pedalando por aí. Existem mesmo. Que bom. Também por pedalarem são preciosas. Também por serem preciosas pedalam. Existem vidas preciosas acreditando muito que é permitido pedalar por aí e que não deveria ser permitido (opa, acho que já não é) matar pessoas que estão pedalando por aí. Não é idealismo, é uma ação concreta e cotidiana de acreditar na vida.

  4. Maria de Fátima do Prado Valladares disse:

    Vou guardar para vocês o que sair impresso sobre o fato. Novamente está levantada a discussão sobre São Paulo (cidade) e bicicleta. Tem artigos de setores diversos incluindo o de um “especialista em cidades” que diz que a nossa não comporta esse tipo de veículo.
    Fico relutante com certas observações, em que parece que nunca haverão alternativas para um bom desenvolvimento. Se fosse dessa forma não sairíamos do lugar. Cabe é dar uma avaliada no crescimento desordenado que cancela ou adia (e muito) opções vantajosas sob tantos aspectos.

  5. Cíntia Muriana disse:

    Concordo com o Maurício, a situação fica mais revoltante e triste quando leio esse tipo de comentário, pois assim como ele, devem ter mais alguns mil que pensam dessa forma…
    E olha que não sou uma ciclista, não por opção, mas por medo mesmo, medo de pessoas que desrespeitam os ciclistas… a resposta é sim, fico no conforto do meu carro, porém trato a bicicleta como um meio de transporte e respeito como tal.
    Edson com todo o respeito a sua opinião, mas ela foi no mínimo infeliz para o momento.

  6. evaristo abrahão disse:

    Antes que o Affonso se tornasse um ciclista costumaz, eu, habitualmente, pedalei pela Zona Oeste em madrugadas afora. Mais pela endorfina gerada por meio do esforço físico, pelo prazer do silêncio, por não dispor de carro e não querer arcar com tarifa de transporte público (ao menos para curtas distâncias) do que por qualquer outra coisa. Não era idealismo, era pragmatismo.
    Evidente que pedalar não só faz bem à saúde como serve de exemplo aos “andróides motorizados”. Mas andar também é meio de locomoção, e bem menos arriscado.
    Aos instruir os apóstolos à pregação, Jesus lhes disse que não se iludissem, pois os enviaria como ovelhas a um mundo de lobos. E dos 12 apóstolos, 11 foram barbaramente assassinados (obs: não sou cristão, não virei crente, nem valorizo martírios).
    O ciclista é, igualmente, uma ovelha que se atira voluntariamente a um mundo de lobos. E é aí que reside a a mencionada acusação de “ideário sessentista”. O “ciclista por opção” quer enfrentar o pragmatismo alheio. Não é um paralítico que, invariavelmente, precisará de ajuda para adentrar um ônibus se este não dispuser de rampa. É alguém que, por escolha, quer ser tratado como igual a despeito da gritante fragilidade. É exigir da vasta maioria que se adequem às suas vontades (e, ainda que estas vontades sejam direito de fato, dificilmente a outra parte vai aceitar que a vontade da minoria lhe gere uma obrigação, mesmo em termos legais).
    Ademais, cabe salientar ser impossível a aplicação da norma que estipula distancia minima de 1,5m de ciclista. Em meio ao tráfego, este preceito é inviável mesmo entre os próprios veículos automotores, que dirá por quem eventualmente transita entre os corredores ou pela faixa direita, junto ao acostamento.

  7. […] último dia em Asunción, recebemos a notícia da morte da Julie Dias. Como já foi dito, muito pouco tem sido feito na cidade para a segurança dos ciclistas, embora […]

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