Dois barbudos-bronzeados no templo do capitalismo

A Juliene, minha namorada, colou em Cascavel e Foz do Iguaçu pra encontrar com a gente no carnaval. Desse encontro, saiu um breve relato dela sobre esse lugar absurdo que é a tripla fronteira. Publico o relato abaixo. Depois adiciono fotos.

Viajar de bicicleta bronzeia. Quando encontrei aquele moço galego com quem compartilhei 90% dos meus dias nos últimos anos, quase não reconheci. Barba + sujeira de estrada + muito sol na pele todo santo dia fizeram um rosto novo. Bonito. Marca de uma vida diversa.

De São Paulo a Cascavel foram cerca de 12 horas de viagem de Carnaval em um busão promocional beeeem ruim – quase o mesmo número em horas que Fabrício e Affonso usaram em dias no mesmo percurso. A conclusão é que os motores “pulam” muitas possibilidades nessa vida. E que eles mentem. A velocidade deles mente o tempo da vida.

De Cascavel, partindo da deliciosa casa do Túlio (que nos recebeu pelo Couchsurfing – oba! Obrigada!), seguimos para Foz do Iguaçu – os maluco de bike e eu de busão. Eles chegaram quase uma hora antes de mim em Foz. Eu saí de Cascavel quase 8 horas depois deles.

O quadradinho da janela do ônibus não me impediu de sentir a aproximação do templo do consumo sem impostos (ou quase sem impostos). Ai, o Paraguai. Para o quê?

Desde muitos quilômetros antes da fronteira, outdoors gigantes nos contam tudo o que podemos encontrar no paraíso. Tudo escrito no imperativo. Compre, conheça, compre, veja, compre, vá, compre, encontre, compre. A percepção veio meio lenta, distraída – eu estava escrevendo versos sobre solidão. De repente, percebi a cabeça acelerar e notei que eu estava repetindo mentalmente uma série de frases sobre as quais não tinha refletido. Compre, conheça, compre, veja, compre, vá, compre, encontre, compre. O melhor “não sei o quê”, o mais novo “não sei o que lá”, o maior “não sei mais o quê”, o mais visitado “não sei mais o que lá”.

Em vez de correr pra Monaliza (a loja campeã em quantidade de anúncios na estrada), corremos para a família ainda desconhecida do Fabrício. Os Muriana são muitos e bons em Foz e não existe sensação mais aconchegante na vida do que casa de vó. E estivemos lindos dias na casa da Muriana, avó de Luiza, Xandinho e Angelo.

 

Nos primeiros dias, trocamos a abundância de produtos pela abundância de água e os meninos trocaram as bicicletas pelo carro na carona da Ju em um dos dias e do Xande no outro dia.

Primeira parada: Usina Hidrelétrica Itaipú Binacional. Além de todo o impacto ambiental que já conhecíamos de ouvir falar e da complexidade das negociações entre Brasil e Paraguai (dívidas de guerra, questões territoriais, etc), uma novidade triste: um pouco acima da Usina, ainda nas águas do Rio Paraná, existia, antes da construção da barragem, Sete Quedas, um conjunto de quedas d’água provavelmente maior em volume do que as mundialmente conhecidas Cataratas do Iguaçu. A belezura toda foi afundada 1982, como resultado do trabalho de mais de 40 mil pessoas que construíram Itaipu.

Segunda parada: Cataratas do Iguaçú, passeio pela estrutura do lado argentino das Cataratas – ponto de vista mais privilegiado que o nosso. É praticamente impossível explicar o que é uma queda d’água daquele tamanho. Os olhos ficam cheios e ainda sobra água pra ver. Nas junções entre quedas, às vezes, fica impossível estabelecer fronteiras, tudo se confunde, a visão fica bagunçada, a água puxa o olhar pra baixo até o rio. É coisa demais pra olho humano. Uma das coisas mais bonitas que já vi na vida.

Nada me tirava da cabeça a imagem puramente idealizada do que deveriam ser as Sete Quedas, que deixaram de existir por decisão humana e em nome do “desenvolvimento”. Fabrício fez uma observação que ainda me assusta: de certo modo, parece que a barragem de Itaipú mimetiza as Cataratas, copia (feiamente, convenhamos) a natureza, as barreiras naturais. Quase daria pra confundir, se uma coisa não fosse relativa a vidas e outra relativa a mortes (145 de trabalhadores, segundo um dos operários que fez parte da construção e nos acompanhou na visita. Sem contar peixes, pássaros, onças, …).

E falando em coisas relativas à morte… vistas as cataratas do rio Iguaçu (e a histeria turística de fotos e poses em seu entorno), o resto… o resto é comércio. O resto é dinheiro. O resto é trabalho absolutamente indigno, mal pago, mal valorizado, mal aplicado, mal planejado de Ciudad del Este. O resto é uma vontade contraditória de que o rio invadisse justamente aquele lugar fronteiriço em que o sistema de valores que vivemos ganha vida em cada cantinho e se mostra, pelo menos pra mim, enorme e poderoso. O resto são pessoas virando mercadoria, trabalho virando mercadoria, vida virando mercadoria. Cotação de dólar, cheiro de desconfiança, seguranças hiper-armados contra-quem? O resto é a pressão para que você tente ter tudo aquilo de que você não precisa. O resto é, portanto, relativo à morte. Porque o dinheiro e a mercadoria são mortos. E boa parte das pessoas está mais preocupada com dinheiro e mercadoria do que com pessoas. (A outra parte não está preocupando-se, está vendendo barato seu sangue e suor).

4 opiniões sobre “Dois barbudos-bronzeados no templo do capitalismo

  1. Élio Kohut disse:

    Faltou o mail d vcs e bamo manter contato, pois so agora q conseguir achar o site de vcs. ja tão aonde

    • Affonso Prado disse:

      Élio, também fazem poucos dias que conseguimos achar a entrevista, ficou ótima, obrigado! É um ótimo registro pro nosso projeto. Meu email é affonsopva@gmail.com e do Fabrício fmuriana@gmail.com

      Agora estamos em Assunção, no Paraguai. Sairemos amanhã cedo em direção a Encarnación (3 dias de viagem).

      Grande abraço

  2. Paulo disse:

    Caros ciclistas. Foi um prazer conhecê-los hoje no consulado. Espero que passem dias felizes em Assunção.
    Boa viagem!
    Paulo

    • Affonso Prado disse:

      Obrigado Paulo, foi ótimo visitar o consulado, faziam uns dias que não achávamos café…Os dias em Assunção foram ótimos, amanhã já partimos em direção a Encarnación. Foi um prazer te conhecer, abraços

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