Se as leis são trabalhistas, como não trabalhar?

Quando realmente precisamos da nossa legislação trabalhista é que podemos ver mais nitidamente o quanto ela foi criada única e exclusivamente pra proteger pessoas que tenham a intenção de (ou são obrigados a) continuar vendendo sua mão de obra por dinheiro até o final da vida.

Explico-me. Por exemplo, aquele seu amigo meio leso, que se mantém na mediocridade cotidiana, fazendo só o que mandam e acessando diariamente o facebook, ele está muito mais protegido pelas leis do trabalho do que você, que resolveu dar um tempo com essa história da exploração do homem pelo homem. Ele, seu amigo limitado, pode ser mandado embora a qualquer momento e poderá ter acesso ao FGTS (Fundo de Garantia por tempo de serviço, sacou? Quanto mais tempo você passa na inércia, mais você ganha), ele vai receber também o seguro-desemprego (oferecido somente a quem entrou no desemprego por obrigação, não por opção), além de multa rescisória no valor de 40% do FGTS (aquele mesmo: quanto mais tempo na inércia, mais você ganha). Ele também vai receber passes livres de metrô e ônibus por 5 meses, para assim facilitar a sua busca por nova labuta.

É óbvio que essas são conquistas históricas, que servem muito mais aos oprimidos do que às exceções (e eu sei que sou exceção). Mas fica claro e cristalino que a moral que essas leis querem criar é a do trabalhador. E só é trabalhador quem procura alguém por quem possa ser explorado a vida inteira. Querendo isso ou não.

Caso você opte por dar um tempo no rolê, pendurar a chuteira só no intervalo da partida, enfim, viver sem trabalhar por um período curto… bem, neste caso você não tem direito a nada. Pelo contrário: cumpra aviso prévio, senão é capaz de você ser descontado. Porque afinal, já temos 30 dias de descanso remunerados por ano, não é mesmo? 2 dias por semana! 3 dias inteiros quando nasce um filho, ou alguns meses caso você seja mulher. Temos licença médica: nem é preciso trabalhar quando estamos doentes. Vendemos só 44 horas da nossa mão de obra por semana, ainda sobram 124 pra tomar transporte público, comer, acessar o Facebook (à vezes conseguimos até acessar do trabalho!). Que mais nós queremos?

O tom irônico desse texto vem exacerbar o que acontece quando se opta por pedir demissão. A dor e a delícia de assinar um documento que atesta sua deserção e o momento exato em que você olha pra tudo isso e percebe que é um jogo simbólico, em que todos realmente acreditam que se trabalharem receberão dinheiro. E recebendo o dinheiro poderão comprar coisas. E quem sabe consigam não só sobreviver, mas também ter conforto. E talvez além de conforto consigam até uma aposentadoria no fim da vida. E talvez a vida assim realmente faça sentido.

Talvez…

Ps: um comentário: Tira esse talvez do final. Você não acredita nisso nem como possibilidade.

De resto, gosto de tudo. Gosto principalmente da tentativa de concessão com as conquistas históricas. São conquistas de reforma! E essa reforma serve apenas para que o trabalhador SOBREVIVA mais ao sistema que o oprime, seja oprimido, portanto, por mais tempo e melhor. E, em sobrevivendo à opressão, sinta-se agradecido por sobreviver. E, logo, sinta-se privilegiado por ser oprimido cercado de tantos cuidados. Enfim, uma reforma que serve a isso aí que você revelou: jogo simbólico + criação da moral do trabalho. Não qualquer trabalho, mas o trabalho cujo sentido é o dinheiro, ou seja, uma coisa que nem existe.

Te amo, desertor. Talvez você vá com menos dinheiro e foda-se – lembra sempre que ele é uma coisa que nem existe!

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