São Miguel Arcanjo, Capão Bonito e Itapeva

 DOENÇAS – Há alguns anos, numa época em que minha cabeça criava trocadilhos e brincava de pensar paradoxos quase todo dia, lembro que o Giovanni (amigo da época do curso de artes plásticas) veio com essa: “Li na internet que existe uma doença relacionada a quem cria mais de 3 ou 4 trocadilhos por dia”. Beleza, então eu era doente, tava sabendo desde aquele momento, e fiquei até feliz em saber da doença.

Tô contando isso pra introduzir um desses paradoxos que desenterrei da memória durante os dias em São Miguel Arcanjo, onde acabamos ficando  5 dias por conta de vários problemas de saúde que tive e fizeram a gente parar. Se eu penso: “A sorte tem muito azar” e na sequência: “O azar tem muita sorte”, ao fim me dá a impressão que o azar leva uma pequena vantagem. Mas isso é só um jogo de linguagem.

O fato é que ficaríamos só uma noite em São Miguel, na casa da Ne, mãe de uma ex-colega de trabalho. Na manhã seguinte à nossa chegada, ao acordar e pensando já em sair, uma dor entre a cintura e a coxa da minha perna direita que já existia desde Pilar do Sul mas não chegou a comprometer nada, se impôs e me fez mancar o dia todo. Adiamos então nossa partida. Fui ao posto médico e me disseram que estava com tendinite, uma inflamação do tendão. Recomendaram uma semana de repouso, injeção no bumbum e uns remédios anti-inflamatórios (não tomo remédios há anos, mas tomei).

Ficamos mais uma noite na Ne, e já no dia seguinte, além da dor da tendinite, acordei com o pulmão arranhando por causa de uma crise de asma súbita, e dez minutos sob o sol causaram uma reação alérgica horrorosa na pele do corpo todo que só está começando a melhorar agora, após quase uma semana do primeiro diagnóstico. Tanto a asma quanto a reação alérgica ao sol foram reações colaterais ao remédio anti-inflamatório. Até uma médica, a quarta que consultei durante essa saga da tendinite (na verdade, foi uma bursite) me disse: “Menino, que azar..”

O último episódio das doenças (espero eu) foi o da minha bicicleta; afinal, numa viagem como a nossa, o ciclista e a bicicleta são uma coisa só, e não duvido que os problemas com a minha corrente, além de terem me obrigado a gastar muito mais energia nas pedaladas do que eu deveria, foram parte da causa da minha bursite. No terceiro dia em São Miguel, levei a bicicleta pro Magrão, um mecânico local, dar uma avaliada. Ele resolveu a questão: a corrente que eu estava usando era pra um câmbio de 21 marchas, e eu estou usando 27 marchas. Isso explicava muita coisa, e o que mais me intrigava foi como que esse detalhe crucial passou despercebido por mim e pelo Fabrício na hora da compra da corrente, pelo mecânico que montou minha bicicleta em São Paulo (desatenção ou negligência), e também pelo Airton (o mecânico paraplégico de Pilar do Sul).  Comprei uma corrente nova e pela primeira vez senti como pedalar naquela bicicleta deveria ser desde o início; a diferença na pedalada, na troca das marchas, no esforço, eram brutais. Se nos primeiros dias de viagem cheguei a pensar (até escrevi aqui no post) que algum sofrimento faz parte da viagem, hoje eu diria de outra forma: há sim muito esforço, mas se há sofrimento há algum problema. Mesmo as inúmeras subidas, que nos primeiros dias me faziam pensar no Sísifo o tempo todo (Sísifo é aquela figura mitológica condenada a carregar uma pedra montanha acima pela eternidade), hoje, com a bicicleta redondinha, e mesmo com quase 30 quilos de bagagem, são só uma questão de paciência e perseverança.

HÉLIO E VANDA de SÃO MIGUEL ARCANJO – Logo ao chegarmos em São Miguel, antes mesmo de chegarmos na casa da Ne, fomos abordados na rua por um ciclista muito simpático e todo equipado: “Opa, cicloturistas! Vindos de onde?”. Era o Hélio, que trabalha numa loja de conveniências/padaria em São Miguel com a mulher Vanda, e organiza viagens de bicicleta com um pequeno grupo de ciclistas de São Miguel. O Hélio fez questão de nos mostrar os roteiros ciclísticos que já realizaram, apresentar o grupo de mulheres ciclistas de São Miguel (7 ou 8 mulheres, incluindo a Vanda), e de nos dar todo tipo de assistência durante nossa estadia: nos levou até a casa da Ne, me levou até o posto de saúde, ofereceu café da manhã, sugeriu o mecânico pra bicicleta. Essa figuras, que aparecem do nada e tem sido até constantes na nossa viagem, não dão chances pro azar levar vantagem.

SEU BENEDITO/D. ANA/EVANDRO de S.Miguel ARCANJO – Após quatro noites dormindo na Ne, muito mais do que o previsto inicialmente, conseguimos uma nova hospedagem em São Miguel para passarmos a última noite antes de retomarmos a viagem rumo a Capão Bonito. E foi num lugar intrigante: o contato eram os pais do Éder, amigo de amigos meus da Usp. No telefone, a dona Ana e o Seu Benedito nos orientavam para que fossemos pra perto da fábrica de chá. Fomos e ficamos rodando ao redor da fábrica, até descobrirmos que ele moravam dentro mesmo do terreno da fábrica da Yamamotoyama, a mesma marca de chá verde e ban-chá que costumo tomar no dia-a-dia em São Paulo. Era domingo e a fábrica não estava funcionando; o Seu Benedito era o administrador da fábrica, bebia diariamente o chá pra avaliar se a qualidade e o sabor estavam de acordo com os padrões da marca. Foram extremamente gentis conosco, nos deram almoço, jantar, café da manhã, atenção e um quarto pra dormir.

A IMAGEM DO CICLO-VIAJANTE E DO CICLISTA – Nos dias de repouso em São Miguel pudemos reparar na enorme diferença  de abordagem das pessoas locais  em relação a nós quando estamos com a bicicleta carregada com as bagagens (alforjes, barraca, sacos de dormir, etc), e quando estamos pedalando descarregados. Como disse o Fatício, há algo de performático na figura do ciclo-viajante, e que inspira imediatamente qualquer pessoa a se perguntar (ou a nos perguntar): “Vem de onde?”, “Vão pra onde?”, “Precisam de ajuda?”, “Tão pagando promessa?”. E outras: “Ai, que dor nas perna!”, “Que coragem!”, “Soorte procêis!”. A comunicação com praticamente qualquer pessoa é imediata, não parece haver qualquer julgamento em relação à nossa condição social.  Mas se estamos pedalando sem as bagagens, paradoxalmente me sinto mais vulnerável: nos tornamos de certa forma alvo de olhares que ou censuram, ou invejam, pois de repente somos os caras com as bike boa, da hora, toda incrementada. Nas estradas os caminhoneiros dão então menos atenção a nós, e isso é sempre um grande risco. E, de modo geral, toda pergunta quanto a nossa origem ou destino cessa nas pessoas com quem cruzamos, deixamos de ser viajantes.

RETORNO À ESTRADA, RUMO A CAPÃO BONITO – Após os 5 dias parados em S. Miguel, retornamos à estrada em direção a Capão Bonito. Não sei se pela enorme vontade de voltar pra estrada, ou pelo vento da manhãzinha que é sempre bom, ou por que finalmente minha bicicleta estava rodando como deveria, todo o caminho até Capão Bonito foi uma delícia de ser percorrido, muito leve pra mim. Chegamos em Capão Bonito ao meio-dia, almoçamos na praça central, e em seguida fomos buscar uma bicicletaria pra tentar arranjar um pézinho/descanso pra bicicleta do Fatício. A dona da bicicletaria era a Lurdes, mais uma dessas figuras partidárias da nossa sorte. Enquanto o Fatício resolvia com o mecânico as questões da bicicleta dele, eu conversava com a Lurdes e a Dani (filha, que também atende na loja) sobre nossa viagem, até que perguntei sobre um lugar baratinho pra passarmos a noite. “Humm, deixa ver.. Tem aquela pensãozinha aqui atrás. Devem cobrar uns 20 reais.” Comentei que 20 era muito pra nós, que não fazíamos questão de conforto e só passaríamos aquela noite na cidade, partindo na manhã seguinte. A Dani comentou com a mãe: “Imagina mãe, se eles forem gastar 20 reais todo dia até chegar no Canadá, aí eles tão lascado”. Daí ligou um motorzinho interno na Lurdes, que pegou o telefone e ligou pro Secretário de Esportes e Cultura de Capão Bonito. Em poucos minutos de ligação, ela nos arranjou um contato com o Secretário, uma reportagem no jornal local, um quarto de hotel pra dormirmos (com café da manhã incluso), e à noite nos preparou uma janta ótima.

ITAPEVA – Acordamos 5:30 no Hotel Regina em Capão Bonito, fizemos a consagração do estômago no café da manhã bem servido do hotel, e partimos umas 6:30 rumo a Itapeva. O cenário ao longo das estradas é quase sempre o mesmo: quilômetros e mais quilômetros de plantações de eucalipto ou pinho, soja, e eventualmente milho. Os grãos, sempre transgênicos, e o eucalipto e pinho sempre pra corte. Quase não havia mata nativa nas laterais das estradas. Faltando alguns quilômetros até chegarmos em Itapeva, paramos em Itararé pra almoçarmos, e seguimos adiante. Chegando em Itapeva umas 14:00, fomos direto procurar a Secretaria de Esportes local, pra buscar apoio. Não vou negar que mais uma vez conseguimos hospedagem, mas foi osso: esperamos quase duas horas o Secretário de Esportes local chegar, mais meia hora até ele nos chamar na sala dele, fazer todo um discurso politiqueiro, sobre as glórias do time de futsal de Itapeva, e pra falarmos deles nas próximas cidades, etc. Acabamos sabendo que poderíamos dormir numa casa cedida ao time de futsal da cidade, mas para isso tivemos que esperar mais quase uma hora até o secretário liberar o Luís (técnico do time de futsal) da sala dele pra que nos mostrasse o caminho até a casa. Chegando lá, uma casa mais ou menos sucateada, inteira cheirando a mijo, um banheiro que não era limpo há muito tempo, mas que ainda assim serviria pra passarmos a noite.

Mais informações, aguarde o próximo versículo…

17 opiniões sobre “São Miguel Arcanjo, Capão Bonito e Itapeva

  1. Maria de Fátima do Prado Valladares disse:

    Jóia meninos! Que gostosa é essa leitura, que maravilha. Quero mais.

  2. Leandro Farias disse:

    Força pra vocês! Que Deus reforce a saúde de vocês dois! Estou adorando o Diário da viagem de vocês!

    Estou trabalhando no meu projeto, em breve passarei pra vcs o site que estou desenvolvendo para o Projeto Pedalando com Deus!

    Abraço amigos!

    • Affonso Prado disse:

      Ei Leandro, que bom que tá gostando dos textos, fico feliz mesmo com seu comentário. Temos encontrado bastante gente na estrada que já fez percursos religiosos pelo Brasil, o mais comentado é o pra Aparecida (famoso, e aparentemente não tão fácil). Cruzamos dois paranaenses na estrada que pararam pra conversar conosco e tinham ido pra lá de cavalo! Quando conversamos estavam voltando num carro, e os cavalos num caminhão. Mande sim pra nós o site do teu projeto, um grande abraço e boa sorte na tua viagem.

  3. Senti o cheiro de mijo daqui.. baita texto… e o Fabricio dormindo de boca aberta e comendo com a mão é impagável…
    Sucesso Galera do bem!

  4. Cíntia Muriana disse:

    Fascinada novamente… é assim que fico a cada post!!! Que o caminho de vocês continue iluminado! bjs e saudades

  5. Claudia Ricci disse:

    Estou adorando acompanhar a viagem de vocês!!! Bons ventos!!!

    • Affonso Prado disse:

      Cláudia, é você mesma?! Do CAP? Se sim, que saudades, e que bom saber que tá acompanhando e gostando dos textos. Fico muito feliz com isso. Beijão, tudo de bom aí

  6. Juli disse:

    “Cedo ou tarde, na vida, cada um de nós se dá conta de que a felicidade completa é irrealizável; poucos, porém, atentam para a reflexão oposta: que também é irrealizável a infelicidade completa. Os motivos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza; eles vêm de nossa condição humana, que é contra qualquer infinito. Assim, opõe-se a esta realização o insuficiente conhecimento do futuro, chamado de esperança no primeiro caso e de dúvida quanto ao amanhã no segundo. Assim, opõe-se a ela a certeza da morte, que fixa um limite a cada alegria, mas também a cada tristeza. Assim, opõem-se as inevitáveis lides materiais que, da mesma forma como desgastam com o tempo toda a felicidade, desviam a cada instante a nossa atenção da desgraça que pesa sobre nós tornando sua percepção fragmentária e, portanto, suportável.” (Primo Levi no livro “É isto um homem?”)

    Obrigada pelo empréstimo. Incrível.

  7. Maria de Fátima do Prado Valladares disse:

    Nossa Juli… obrigada também! Adorei ler essa descrição! Estou só na cola de “gente especial”. Eta carona boa!!!

    • Juli disse:

      É um trecho muito lindo, né, Fátima? Achei que encaixava um pouco nessa etapa da vida, mas, no fundo, encaixa em quase qualquer uma… enfim. Seguimos pegando carona uma com a outra e etc! Abraço!

  8. Guilherme Justo disse:

    Olá Afonso. Aqui é o Guilherme, filho da Carmem, amiga da sua mãe. Que viagem mais interessante que vocês estão fazendo! Estou acompanhando a trajetória de vocês. Um abraço.

    • Affonso Prado disse:

      Ei Guilherme, que legal saber que você leu nosso blog, que está acompanhando. Espero que esteja gostando, e se tiver vontade de fazer uma viagem parecida ou algo do tipo dá um toque que quero poder ajudar. Mande um beijo pra sua mãe por favor, tenho muito carinho por ela. Abraço

  9. ana disse:

    nossa pei quase nao te reconheciii!!! adorei o texto! to acompanhando sempre vcs =]
    boa viagem !

    • Affonso Prado disse:

      Peidolinha, confesso q to com muitas saudades, mas não dá pra chorar pq tenho q guardar água e sais minerais no corpo, entende? Tudo bem aí? Hj acordei com o gato da casa em que dormimos brincando com um pardalzinho. Morto. Kaput. Tirei foto, vou colocar no próximo texto q escrever.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *