Paraguai – parte 1

Tentando relembrar o que foram as últimas duas semanas, tudo se embaralha. Estradas, países, fronteiras, pessoas, nomes, locais onde dormimos, comidas, mates e tererés… O registro contínuo se faz obrigatório porque o acúmulo é certo depois de poucos dias.

Meu atraso não pode ser justificado, mas ao menos pode ser compreendido por conta do pau que meu computador teve. Como sei que alguns cicloviajantes e pessoas que querem colocar o pé na estrada acompanham esse blogue, vale dizer que planejei levar meu computador antigo, que tem garantia estendida de 3 anos. Até aqui, tudo certo que ele tenha dado pau. Vamos ver o que a garantia me conta quando chegarmos em Buenos Aires.

Escrevo hoje da pequena cidade de Itaqui, que fica entre São Borja e Uruguaiana, todas as três às margens do Rio Uruguai. Extremo sudoeste do Brasil e fronteira com a Província de Corrientes, na Argentina. Acho que o último registro mais preciso que fizemos foi em Asunción, ainda abalados com a morte da Julie Dias.

Antes de lá, havíamos cruzado o Paraguai em três dias, entrando por Ciudad Del Este, posando em Campo Nueve, San Jose Del Arroyo e terminando em Asunción. Nesta última, fomos recebidos pelo Giulio Andreotti, músico e morador de Asunción, que faz parte do Couchsurfing. Ficamos em sua casa por três dias e saímos em direção a Encarnación, no extremo sudeste do Paraguai. No caminho, posamos em Quiindy, San Juan Bautista, entramos em San Ignacio, posamos também em Santa Rosa e duas noites em San Cosme y Damián, para enfim chegar a Encarnación.

Este trajeto nos interessava para poder conhecer minimamente o Paraguai, país por onde poucos brasileiros viajam e por onde ainda menos cicloviajantes se arriscam. A última palavra foi escolhida porque nossa imagem do Paraguai nos sugere que viajar por lá é um risco. Depois de cruzar o país e coltar, não direi o contrário, mas devo dizer que o risco é bem menor do que imaginávamos. Já nos primeiros dias, ficamos realmente surpresos (pra não dizer chocados), ao ver meninos de 13 ou 14 anos andando de moto. Nem vou dizer que estavam sem capacete, porque os adultos também não o usam, com exceção de Asunción e Ciudad Del Este. As motos são extremamente populares no interior do Paraguai, sendo os motoqueiros os que ocupam a posição de “oprimidos”. Posição que costumeiramente nós ciclistas ocupamos em cidades onde as bikes começam a aparecer. Por incrível que pareça, o caos geral causado pela quantidade e os múltiplos usos feitos da moto faz com que a média de velocidade seja mais baixa e também com que as motos estejam quase sempre no acostamento. Como cruzamos todo o Paraguai usando os acostamentos, era comum ser ultrapassado por uma delas numa daquelas finas que normalmente levamos de carros. A boa nova é que, se caíssemos, o acidente provavelmente não seria fatal. Nada aconteceu, mesmo com pessoas circulando pelos acostamentos, motos vindo na contramão, motos com famílias inteiras (vi até com 4 pessoas) e motos pilotadas por crianças. Parece, de novo, que o caos do trânsito de lá obriga as pessoas a irem mais devagar e tomarem mais cuidado.

Tipo de imagem corriqueira na Ruta 2 Fonte: http://www.abc.com.py/nota/asi-se-maneja-por-ruta-2/

A maneira como as cidades do interior do Paraguai se desenvolveram também é bem peculiar. No Brasil, estamos acostumados a pegar um acesso ou um trevo para entrar numa cidade. No Paraguai, na grande maioria das vezes, a própria estrada é a avenida principal da cidade. Giulio nos explicou que isso foi um problema de planejamento das pistas, que foram construídas exatamente sobre as antigas rotas de tropeiros, diferente das estradas brasileiras que foram construídas próximas, mas ao lado das cidades. O resultado é um misto de marginal, com cara de interior e com muitas homenagens aos mortos na estrada. No princípio, achei que o Paraguai teria a mesma quantidade de cruzes que no Brasil, mas logo no primeiro dia já desisti de registrar todas as cruzes que encontrávamos. Como disse no post anterior, a sensação é de andar por um grande cemitério.

Estávamos apreensivos quanto a onde terminaríamos dormindo, uma vez que fomos diversas vezes recepcionados pelas prefeituras e secretarias de esportes no Brasil. Por lá, no primeiro dia encontramos um brasileiro que mora no Paraguai há décadas e que nos permitiu armar a barraca no seu quintal. A cidade era Campo Nueve (ou Doctor Eulogio Estigarribia, como renomearam, mas todo mundo chama de Campo Nueve). Antes de chegar na casa, o Affonso ficou pra trás, enquanto eu seguia a moto do brasiguaio. Foi a oportunidade de usarmos pela primeira vez os radinhos que compramos em Foz do Iguaçu, exatamente pro caso de nos separarmos. Conhecemos toda a família do nosso anfitrião, ganhamos uma hamburguesa, dormimos cedo e partimos pra San José Del Arroyo.

Nesta cidade, fomos recebidos pelo diácono da igreja local. Armamos a barraca numa espécie de palco anexo à igreja, onde o ar era fresco de noite, mas que descobrimos ser uma área bem aberta à circulação de pessoas. Tivemos que revezar cuidando das coisas, o que não foi muito difícil já que não havia nada o que fazer na cidade. O curioso foi receber uma jarra de suco espontaneamente da vizinha da igreja. Eu e o Affonso às vezes brincamos que estamos jogando Zelda e que ganhamos alguns itens. Em Ponta Grossa, o Cláudio nos presenteou com duas meias de dedos, melhores para o frio. Em Cascavel, o Túlio deu Malto Dextrina ao Affonso, que serve pra repor carboidratos. Em Ibema, o Affonso recebeu um tupperware grande de comida de uma mulher e mais 10 reais de um senhor. Mais pra frente, conto também dos itens que perdemos pelo caminho.

Meias de dedo!

Ainda em San Jose del Arroyo, um raio da roda traseira do Affonso estava quebrado. E pra nossa total surpresa, não havia bicicletarias na cidade. Nenhuma. Veja como faz sentido: a criança com 12 anos já está aprendendo a usar as marchas na moto. Em todos os lugares, só existem borracharias e nenhuma bicicletaria. O calor nessa região variava entre 28 e 37 graus. Tudo isso colabora pra que não haja demanda por bicicletas, tampouco por bicicletarias. Não tínhamos a ferramenta pra sacar o cassete, e o Affonso tentou resolver com um cara que arrumava motos. Não rolou o improviso e não tínhamos confiança pra ele rodar 103 km até Asunción com o raio quebrado. A solução foi ele ir de ônibus e eu ir sozinho de bicicleta.

Saí de San Jose tarde, lá pelas 11h. Cheguei a Asunción, depois de uma parada pro almoço e três pra tomar sorvete, quando a noite já chegava. Logo na entrada, já encontrei com um mecânico que relembrou a Guerra do Paraguai. Essa imagem da guerra, bem como a guerra contra a Bolívia, forjaram o imaginário e a identidade nacional (ao menos pelo que eu pude ver) e estarão presentes durante toda a nossa passagem pelo país. Cheguei no apê do Giulio e o Affonso já estava por lá. Alguns dias de wi-fi, cidade grande e cervejas nos esperavam.

Entrando em Asunción - registro da gopro

Ficamos ao todo 3 dias e 4 noites da casa do Giulio, nas quais fomos convidados todos os dias pra sair ao pub mais próximo, com a ilustre companhia do nosso anfitrião. Giulio é editor de uma TV local e músico da orquestra municipal. Mora na região central de Asunción e conhece gente pra caramba por lá (parecia um vereador cumprimentando eleitores a cada esqina). Com ele, fomos a um pub e três restaurantes massa pra caramba. Um dos restôes, o melhor de todos, foi o Lido, que já estava super indicado pelo Gilberto Kyono. Os preços eram bem fora da curva da vida franciscana da estrada, mas nada como voltar um pouco a ter o que era o cotidiano de São Paulo.

Foi também por meio do nosso anfitrião que começamos a ouvir uma outra história do Paraguai, que só vai ganhar forma mais precisa quando saímos do país. Cabe dizer que a Guerra do Paraguai, que estudamos super pouco por aqui, matou 90% da população masculina do país, o que já dá uma idéia do tamanho da destruição que causamos. Boa parte das questões de diplomacia do Brasil são apresentadas hoje como forma de compensar os estragos da guerra, mas no geral o Paraguai continua vendendo quase a metade da energia de Itaipu super barato pro Brasil e continua no caminho do subdesenvolvimento, com seus carros importados quase sem impostos e divisão de terra extremamente concentrada.

Asunción é uma capital caótica como a São Paulo de 10 anos atrás, onde os donos de carro mandam. A única imagem da cidade que me tira esse referencial é a da comemoração do dia dos Heróis. Calhou de estarmos lá nesse feriado e fui assistir os festejos na Praça dos Heróis. Tanto a peça quanto a apresentação de dança referenciavam a morte do Marechal Solano López, assassinado pelo exército brasileiro e que deu fim à Guerra do Paraguai. Saí com essa imagem forte na cabeça: a de uma identidade nacional forjada na morte e nas derrotas. Na Guerra com a Bolívia, o Paraguai ganhou, mas cedeu territórios no acordo de paz, o que também é uma espécie de derrota. No entanto, mesmo assim eles têm um dia para comemorar seus heróis e não há uma cidade por onde passamos que não tenha uma rua “Mariscal López”.

Fim da primeira parte da viagem ao Paraguai.

Ps: As imagens desse post são meio toscas, pq as melhores ficaram presas no backup. Como o backup da apple só serve em outro macbook, to na roça.

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12 opiniões sobre “Paraguai – parte 1

  1. Lucas Caju disse:

    Sensacional.

  2. Maria de Fátima do Prado Valladares disse:

    É verdade meninos. O desejo de notícias não deve ultrapassar o limite do bom senso. Por mais que seja prazeroso esse empreendimento, não é brincadeira o percurso. E ter como mais uma atribuição descrever todos os detalhes pode acabar enrolando a estória. Só de imaginar o que vocês possam estar aproveitando já é uma imensa alegria para nós, resultado do grande investimento que estão fazendo. Dessa forma o que vier será de bom tamanho. Um beijo enorme e que Deus os proteja sempre.

  3. isabel cristina barbosa guedes disse:

    Olá Fabrício,
    Adorei saber notícias suas. Vou ficar acompanhando o seu blog. Ótima viagem. Beijos Isabel(Secom)

    • Fabrício Muriana disse:

      Massa, Isabel. Bom te ver por aqui!

      • Debra disse:

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  4. Olá Fabrício,
    Adorei saber notícias suas. Vou acompanhar o blog.
    Ótima viagem para vocês. Beijos Isabel (secom)

  5. Cíntia Muriana disse:

    Que bom que vcs apareceram! Estava sentindo falta… bjs

  6. Juli =) disse:

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Solano_L%C3%B3pez

    Pelo que vi até o Palácio do Governo leva o sobrenome dele. É maluco como somos todos muito marcados por referências de guerras que sequer vivemos. Todos os casos me fazem pensar que tipo de identidade pode ser construído a partir da referência de um conflito violento. Haveria outra maneira de marcar nossas identidades nacionais? Teria isso algum efeito na nossa vida hoje, nas relações entre pessoas e nações?

    E, especificamente no Paraguai, dá muito a pensar o que é construir-se a partir da derrota. Uma coisa meio fênix, mas quase sem a parte do renascer. Como se fosse mais seguro manter-se ali, eternizando o momento da derrota, do que renascer para novos riscos. Ou como se sequer houvesse alternativa a não ser celebrar a derrota – e não o renascimento, diga-se.

    Enfim. Construir-nos sobre a guerra é sempre estranho, sobre a derrota é ainda mais estranho, sobretudo num tempo em que só relatamos nossas vitórias e somos todos vencedores – pelo menos nos perfis na rede e nas conversas de bar.

  7. Monkey disse:

    That’s not just logic. That’s really senibsle.

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